Barulinho

sábado, 11 de agosto de 2007


Ainda dormia quando ela chegou, o olhar da mamãe estava brilhante como eu nunca tinha visto. As lembranças daquela época hoje são escassas, mas daquele olhar nunca irei me esquecer. O ciúme me corroía, mas não podia evitar a curiosidade: encontrava-me atrás da porta, no alto dos meus três anos, ainda perdida de sono, mas tentando manter a visão atenta àquela nova pessoa que chegava. Era um bebê, um barulhento e minúsculo bebê.
A atenção era toda voltada para aquela menina que tinha resolvido entrar na nossa casa. Toda a conformação dos móveis mudada, as grades nas janelas colocadas, os utensílios antigos guardados no alto para a segurança da criança. Sim, porque eu, já com sete anos, não precisava de nada daquilo, sabia me cuidar sozinha. Mamãe e papai saíam pra trabalhar, levavam o neném para a creche e eu me arrumava para a escola e tomava meu café da manhã. Quando chegava a casa, eles estavam aprontando o bebê para dormir e eu ia para o quarto sem muito barulho. Conversava com Luísa, minha colega de turma. Não acreditava muito nos seus devaneios, mas era a mais esperta de todas: ela que outrora descobrira que, na verdade, quem comprava os presentes de Natal eram nossos pais. E foi ela quem me perguntou: “E ela é doce?”. “Enlouqueceu de vez”, pensei. E questionei, afinal, como uma pessoa pode ser doce? “Mamãe diz que eu era doce. Que cheiro de neném é bom e o gosto melhor ainda, ainda mais quando é o próprio filho.”. Minha mãe nunca tinha dito aquilo para mim. Muito menos sobre mim. E eu... bem, eu não queria chegar, assim, tão perto daquela criança. Não mesmo.
Os olhos da mamãe não mais brilhavam. Nem mesmo quando eu trazia algum desenho para ela da escola. Na verdade, parecia cada vez mais envelhecida e amarga, com uma aura cinzenta, e só reclamava. “Daqui a pouco vamos ser proibidos de viver” era sua frase mais repetida. Eu não tinha muita idéia de preço, mas sabia que o leite estava caro, o açúcar estava caro e os biscoitos, então, pela hora da morte! Nem pensar em pedir a boneca nova da vitrine da esquina.
Reunião de pais e professores. Eu, com nove anos, já sabia falsificar a assinatura da minha mãe direitinho nos boletins. Mas dessa não iria escapar: a diretora fez questão de avisar diretamente aos meus pais. Esperei por longas horas e, com o olhar frio do meu pai ao sair de lá, tinha certeza de que aquilo não poderia ser bom. O castigo não foi tão ruim. Minha mãe falando, sem nem olhar para mim, “Desde que você nasceu, estava certa de que não seria nada que prestasse na vida” foi o pior.
Venci! Finalmente. Depois de muito tempo de luta, tinha conseguido. Cheguei em casa com o prêmio pelo melhor trabalho de ciências e iria conseguir comprar a boneca que eu tanto queria. Mamãe projetou um sorriso, pegou a boneca e entregou à outra filha. Eu já tinha onze anos, não era mais idade para brincar de boneca, veja só. E que fosse me dedicar aos estudos.
Aos quinze anos, sentada na varanda. Aquela nova criança lá de casa já estava crescida e em pé ao meu lado. Era muito mais bela e mais alegre que eu. Era a promessa de futuro para minha mãe. Estudava em escola melhor, fazia todos os cursos possíveis, participava dos mais variados concursos (e ganhava quase todos). E se sentou no parapeito onde eu estava. Olhou diretamente nos meus olhos, com aquele mesmo brilho do olhar de mamãe há muitos anos, e me entregou o pacote com a mesma boneca. Eu me virei para ela e dei um sorriso. Palavras eram desnecessárias. Beijei seu rosto e comprovei: mesmo não sendo mais um bebê, minha irmã era realmente doce.

3 comentários:

Rainha de Copas disse...

mais doce que ela, só o amor que você sente por ela. linda declaração de amor, flah! tem muito carinho, historia, sentimento de tudo. beijo.

Scarlati~ disse...

A admiração, não sei...
As vezes sentimos que não somos tão importantes assim, mas sempre existe alguém que não imaginamos, sempre existe um ser, iluminado que nos vê como a melhor pessoa do mundo e é capaz de tocar o fundo do nosso coração com apenas um olhar. Amor, de qualquer jeito, amor.

Anônimo disse...

Isso é de verdade irmã, ou apenas fruto da sua imaginação?

De qualquer forma me emocionou bastante!

Adorei de verdade!


Bjux!